quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

LEMBRAR OU RECORDAR



A recordação não tem apenas que ser exata; tem que ser também feliz; é preciso que o aroma do vivido esteja preservado, antes de selar-se a garrafa da recordação. Tal como a uva não deve ser pisada em qualquer altura, tal como o tempo que faz no momento de esmagá-la tem grande influência no vinho, também o que foi vivido não está em qualquer momento ou em qualquer circunstância pronto para ser recordado ou pronto para dar entrada na interioridade da recordação.
Recordar não é de modo algum o mesmo que lembrar. Por exemplo, alguém pode lembrar-se muito bem de um acontecimento, até ao mais ínfimo pormenor, sem contudo dele ter propriamente recordação. A memória é apenas uma condição transitória. Por intermédio da memória o vivido apresenta-se à consagração da recordação.

A diferença é reconhecível logo nas diferentes idades da vida. O ancião perde a memória, que aliás é a primeira capacidade a perder-se. Contudo, o ancião tem em si algo de poético; de acordo com a representação popular ele é profeta, é divinamente inspirado. A recordação é afinal também a sua melhor força, a sua consolação: consola-o com esse alcance da visão poética.

A infância, pelo contrário, possui em grau elevado a memória e a facilidade de apreensão, mas não tem o dom da recordação. Em vez de dizer-se «a idade não esquece o que a juventude aprende», poder-se-ia talvez dizer: «o que a criança retém na memória, recorda-se o ancião». Os óculos do velho são feitos para ver ao perto. Se na juventude é preciso usar óculos, as lentes servem para ver ao longe, pois que à juventude falta a força da recordação, que consiste em afastar, em pôr à distância. Mas a recordação feliz da velhice tanto quanto a feliz capacidade de apreensão da criança são dom da natureza, uma graça que concede a sua preferência aos dois períodos mais desprotegidos da vida, que contudo, em certo sentido, são também os mais felizes. Mas é também por isso que a recordação, tal como a memória, é por vezes apenas detentora de casualidades.


Soren Kierkegaard, in 'In Vino Veritas' http://www.citador.pt/textos/a/soren-kierkegaard

A INVEJA


                                                            








A Inveja é uma Admiração que se Dissimula

A inveja é uma admiração que se dissimula. O admirador que sente a impossibilidade de ser feliz cedendo à sua admiração, toma o partido de invejar. Usa então duma linguagem diferente, segundo a qual o que no fundo admira deixa de ter importância, não é mais do que patetice insípida, extravagância. A admiração é um abandono de nós próprios penetrado de felicidade, a inveja, uma reivindicação infeliz do eu.


Soren Kierkegaard, in "O Desespero Humano"

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Nenhum Amor é Menos Ridículo que Outro

Temos, pois, que ao amor corresponde o amável, e que este é inexplicável. Concebe-se a coisa, mas dela não se pode dar razão; assim também é que de maneira incompreensível o amor se apodera da sua presa. Se, de tempos a tempos, os homens caíssem por terra e morressem subitamente, ou entrassem em convulsões violentas mas inexplicáveis, quem é que não sofreria a angústia? No entanto, é assim que o amor intervém na vida, com a diferença de que ninguém receia por isso, visto que os amantes encaram tal acontecimento como se esperassem a suprema felicidade. Ninguém receia por isso, toda a gente ri afinal, porque o trágico e o cômico estão em perpétua correspondência. Conversais hoje com um homem; parece-vos que ele se encontra em estado normal; mas amanhã ouvi-lo-eis falar uma linguagem metafórica, vê-lo-eis exprimir-se com gestos muito singulares: é sabido, está apaixonado. Se o amor tivesse por expressão equivalente «amar qualquer pessoa, a primeira que se encontra», compreender-se-ia a impossibilidade de apresentar melhor definição; mas já que a fórmula é muito diferente, «amar uma só pessoa, a única no mundo», parece que tal ato de diferenciação deve provir de motivos profundos.
Sim, deve necessariamente implicar uma dialética de razões, e quem não as quisesse ouvir ou não as quisesse expor, ganharia mais em desculpar-se com a inoportuna extensão do discurso do que em alegar a falência total de explicações.
Ora a verdade é que o amante não pode explicar nada, não sabe explicar nada. Viu centenas de mulheres; deixou talvez passar muitos anos sem experimentar o amor; e um dia, de repente, vê a sua mulher, a única, a Catarina.
Isto é ridículo. Sim, é cómico que tão grande força que há-de transformar e embelezar a vida inteira - o amor - nem sequer seja como o grão de mostarda donde deverá surgir uma grande árvore, que seja menos do que isso, que, em última análise, se reduza a um quase nada. Sim, é cômico que do amor não se possa apresentar um só critério prévio, por exemplo a idade em que se produz tal fenômeno  que da escolha da única mulher no mundo não se possa dar a mínima razão, que se haja escrito que «Adão não elegeu Eva, porque não teve possibilidade de a distinguir entre as mulheres».
Não será igualmente cômica a explicação apresentada pelos amantes? Ou melhor, essa explicação não servirá para acentuar ainda mais o aspecto cômico  Os amantes dizem que o amor os cega, e depois de dizerem isso é que tentam iluminar o fenômeno  Se um homem entrasse numa câmara escura para ir lá buscar um objecto qualquer, e se respondesse «não vale a pena, a coisa não tem importância , a quem lhe dissesse que procuraria melhor se levasse consigo uma luz, eu compreenderia muito bem a atitude desse homem. Mas se esse mesmo homem me chamasse à parte para em grande mistério me confiar que ia buscar uma coisa importantíssima, e que por isso mesmo tinha de a procurar às cegas - como poderia a minha pobre cabeça de mortal seguir a subtileza de tão desconcertante linguagem! Evidentemente que não lhe riria na cara, para não ofender; mas, assim que ele voltasse as costas, não poderia mais conter a vontade de rir.

(...) Se me entrego à hilaridade, estou muito longe de querer ofender alguém. Desprezo, porém, esses loucos, persuadidos de que o amor deles está tão completamente justificado que podem de bom grado mofar dos outros amantes; pois, uma vez que o amor se furta a qualquer explicação, todos os amantes se tornam igualmente ridículos.


Soren Kierkegaard, in "O Banquete" (Discurso do Mancebo, sem experiência no amor)

O Irracional no Amor


Se é ridículo beijar uma mulher feia, também é ridículo dar um beijo a uma beleza. A presunção de que amando de uma certa maneira se tem o direito de rir do vizinho que tem outra maneira de amar, não vale mais do que a arrogância de certo meio social. Tal soberba não põe ninguém ao abrigo do cômico universal, porque todos os homens se encontram na impossibilidade de explicar a praxe a que se submetem, a qual pretende ter um alcance universal, pretende significar que os amantes querem pertencer um ao outro por toda a eternidade, e, o que mais divertido é, pretende também convencê-los de que hão de cumprir fielmente o juramento.

Que um homem rico, muito bem sentado na sua poltrona, acene com a cabeça, ou volte a cara para a direita e para a esquerda, ou bata fortemente com um pé no chão, e que, uma vez perguntado pela razão de tais atos, me responda: «não sei; apeteceu-me de repente; foi um movimento involuntário», compreendo isso muito bem. Mas se ele me respondesse o que costumam responder os amantes, quando lhes pedem que expliquem os seus gestos e as suas atitudes, se me dissesse que em tais atos consistia a sua maior felicidade, como é que eu poderia impedir-me de ver o ridículo de tal explicação - tal como o exemplo que há pouco dei; se bem que diferente, é certo -, enquanto tal homem não se resolvesse a pôr termo à minha hilaridade, confessando que esses gestos não tinham significação alguma. Num repente, com efeito, a contradição, que é a base do cômico  desaparece; porque não há nada ridículo em que uma coisa destituída de sentido seja reconhecida como tal, mas é grotesco atribuir-lhe um alcance universal. Em relação ao involuntário, a contradição reaparece: não é possível admitir o involuntário num ente racional e livre. 

Soren Kierkegaard, in "O Banquete" (Discurso do Mancebo, sem experiência no amor)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Memória vs Recordação


 As Armas da Juventude e da Velhice

Recordar-se não é o mesmo que lembrar-se; não são de maneira nenhuma idênticos. A gente pode muito bem lembrar-se de um evento, rememorá-lo com todos os pormenores, sem por isso dele ter a recordação. A memória não é mais do que uma condição transitória da recordação: ela permite ao vivido que se apresente para consagrar a recordação. Esta distinção torna-se manifesta ao exame das diversas idades da vida. O velho perde a memória, que geralmente é de todas as faculdades a primeira a desaparecer. No entanto, o velho tem algo de poeta; a imaginação popular vê no velho um profeta, animado pelo espírito divino. Mas a recordação é a sua melhor força, a consolação que os sustenta, porque lhe dá a visão distante, a visão de poeta. Ao invés, o moço possui a memória em alto grau, usa dela com facilidade, mas falta-lhe o mínimo dom de se recordar. Em vez de dizer: «aprendido na mocidade, conservado na velhice», poderíamos propor: «memória na mocidade, recordação na velhice». Os óculos dos velhos são graduados para ver ao perto; mas o moço que tem de usar óculos, usa-os para ver ao longe; porque lhe falta o poder da recordação, que tem por efeito afastar, distanciar.

A feliz recordação do velho é, como a feliz facilidade do moço, um gracioso dom da natureza, da natureza que protege com seus cuidados maternais as duas idades da vida que mais precisam de socorro, se bem que, em certo sentido, sejam também as mais favorecidas. Mas é por isso também que a recordação, tal como a memória, muitas vezes não passa de portadora dos dados mais acidentais.
Apesar de se distinguirem por grande diferença, a recordação e a memória são por vezes tomadas uma pela outra. A recordação é efetivamente idealidade, mas como tal, implica uma responsabilidade muito maior do que a memória, que é indiferente ao ideal.

A recordação tem por fim evitar as soluções de continuidade na vida humana e dar ao homem a certeza de que a sua passagem pela terra efetua uno tenore, num só traço, num soporo, e pode exprimir-se na unidade. Assim se liberta ela da necessidade em que a língua se encontra de repassar incessantemente pelas mesmas tagarelices, para reproduzir aquelas de que a vida se encontra repleta. A condição da imortalidade do homem é que a vida dele decorra uno tenore.

Soren Kierkegaard, in "O Banquete"http://www.citador.pt/textos/a/soren-kierkegaard

sábado, 9 de março de 2013

A Existência de Deus

Deus não é um nome, mas um conceito.

A Prova da Existência de Deus

Não será um empreendimento excêntrico pretender extrair dos atos de Napoleão a prova da sua existência? Porque, se é verdade que a sua existência explica os seus atos, os seus atos não podem provar a sua existência, a menos que esta tenha já sido implicitamente posta na palavra sua. Além disso, na medida em que Napoleão não é senão um indivíduo, não existe entre os seus atos e ele relação absoluta tal que nenhum outro indivíduo seria capaz das mesmas ações: é talvez essa a razão que me impede de concluir dos atos para a existência. Com efeito, se digo que os atos são de Napoleão, então a prova é supérflua, pois que já me referi a ela; mas se ignoro o nome do seu autor, como provar pelos próprios atos que eles são efetivamente de Napoleão? Não posso ultrapassar a afirmação, inteiramente abstrata, de que procedem de um grande general, etc.

Pelo contrário, entre Deus e os seus atos existe uma relação absoluta, porque Deus não é um nome, mas um conceito, e é talvez por isso que a sua essentia involvit existentiam. Assim, os atos de Deus só Deus pode praticá-los; muito bem; mas quais são então os atos de Deus? De atos imediatos, a partir dos quais possa provar a sua existência, não vejo o menor vestígio, a menos que admita que a ação da sua sabedoria da natureza, da sua bondade ou da sua sabedoria na Providência entre pelos olhos dentro. Mas, com isto, não abro eu a porta, pelo contrário, a tentações terríveis, tentações tais que não é possível superá-las a todas? Não, de tal ordem de considerações não consigo tirar verdadeiramente a prova da existência de Deus, e, mesmo que o tentasse, jamais conseguiria levá-lo a termo, enquanto me veria forçado a viver sempre em suspenso, com o receio de que me sucedesse de repente alguma coisa tão terrível como a perda das minhas pequenas provas.

Soren Kierkegaard, in "Mitos Filosóficos"  http://www.citador.pt/textos/a/soren-kierkegaard

domingo, 3 de março de 2013

Romantismo-Idealismo do Amor


A grandiosidade do Homem depende da Mulher, mas só enquanto não a possui...

O homem deve à mulher tudo quanto fez de belo, de insigne, de espantoso, porque da mulher recebeu o entusiasmo; ela é o ser que exalta. Quantos moços imberbes, tocadores de flauta, não celebraram já o tema? E quantas pastoras ingênuas não o ouviram também? Confesso a verdade quando digo que a minha alma está isenta de inveja e cheia de gratidão para com Deus; antes quero ser homem pobre de qualidades, mas homem, do que mulher - grandeza imensurável, que encontra a sua felicidade na ilusão. Vale mais ser uma realidade, que ao menos possui uma significação precisa, do que ser uma abstração susceptível de todas as interpretações. É, pois, bem verdade: graças à mulher é que a idealidade aparece na vida; que seria do homem, sem ela? Muitos chegaram a ser gênios  heróis, e outros santos, graças às mulheres que amaram; mas nenhum homem chegou a ser gênio por graça da mulher com quem casou; por essa, quando muito, consegue o marido ser conselheiro de Estado; nenhum homem chegou a ser herói pela mulher que conquistou, porque essa apenas conseguiu que ele chegasse a general; nenhum homem chegou a ser poeta inspirado pela companheira de seus dias, porque essa apenas conseguiu que ele fosse pai; nenhum homem chegou a ser santo pela mulher que lhe foi destinada, porque esse viveu e morreu celibatário. Os homens que chegaram a ser gênios, heróis, poetas e santos cumpriram a sua missão inspirados pelas mulheres que nunca chegaram a ser deles.

Se a idealidade da mulher fosse positivamente, e não negativamente, um fator de entusiasmo, inspiratriz seria a mulher à qual o homem, casando, se unisse para toda a vida. A realidade fala-nos, porém, outra linguagem. Quero dizer que a mulher desperta, sim, o homem para a idealidade, mas só o torna criador na relação negativa que mantém com ele. Compreendidas assim as coisas, poderá efetivamente dizer-se que a mulher é inspiradora, mas a afirmação direta não passa de um paralogismo em que só a mulher casada pode acreditar. Quem ouviu alguma vez dizer que uma mulher casada tivesse conseguido fazer do marido um poeta? A mulher inspira o homem, sim, mas durante o tempo que for vivendo até a possuir. Tal é a verdade que está escondida na ilusão da poesia e da mulher.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Transcendência Temporal


A afirmação do homem religioso, Kierkegaard compreende como um estágio existencial superior, porque supera e não aniquila os estágios estético e ético. Toda a relação está voltada para uma realidade que supera a coisificação do próprio homem. Nesse estado qualitativo transparece claramente a existência humana desvelada em si mesma, sem máscaras sociais ou postulações indefinidas, calcadas em eventos cingidos pela a aparência cotidiana.  Contrariando o espetáculo circense em que o homem está inserido ou elevado a compreensão da moralidade que formata o homem na coletividade, Kierkegaard, eleva a vivência concreta do indivíduo, esclarecendo que o existir decide-se por algo mais profundo, o conhecimento de si, o qual dispensa a aparência estética e a formatação definida pela moral, em vista da transcendência temporal, onde irá relacionar-se o finito com a infinitude. 

Solidão da Escolha


As possibilidades se manifestam ao homem a partir do momento em que ele opta por vir-a-ser. Na decisão, que já é uma escolha, encontram-se infinitas ações que o sujeito pode executá-las. Suas realizações estão condicionadas a uma decisão tomada racionalmente. Na solidão da escolha, o homem depara-se com o deserto em si, tentado a recuar pelos impulsos ambivalentes da timidez existencial. É preciso erguer a cabeça e enfrentar-se permitindo sua autoafirmação diante da estagnação própria do nada escolher. Ao tomar uma decisão devemos ter consciência de que ela irá implicar em infinitas outras escolhas; abre-se um leque imensurável de opções tidas como pressupostos anônimos, os quais serão reconhecidos mediantes circunstâncias vitais, que vamos percebendo e tomando conhecimento racional ao longo do curso histórico. 

Fidei Dom


O homem vive no limiar da opção entre o isso ou o aquilo, isto é, na instante do nada. Pode torna-se algo quando decide por si, fazendo uma escolha, opta por assumir sua condição de ser. Todavia, a escolha, segundo Kierkegaard, exige uma força sobrenatural a qual podemos denominá-la de fé.  A fidei dom (dom da fé) é um ato também de escolha que se fundamente no Criador de todas as coisas, o Deus cristão. Para Kierkegaard, o Deus Cristão tende a significar a divindade tocando o limiar da existência humana, confirmando em sim, no homem a realidade das relações existenciais entre atemporal e o temporal. Tal relação não está supostamente eliminando as ambivalências ou dúvidas, mas confrontando o limite humano com a sua capacidade de eternizar a vida. Reconhecimento e escolha pelo Eterno abre o pressuposto da infinitude humana, fazendo dela um cavaleiro da fé. 

terça-feira, 26 de julho de 2011

segunda-feira, 25 de julho de 2011

terça-feira, 19 de julho de 2011

Como superar o Desespero?


Como superar esse desespero? Seria necessária uma força: Deus, porque a Deus, justamente, tudo é possível. A relação com Deus aparece então como o meio de salvar o Indivíduo da angústia e do desespero em que sua posição na existência o coloca. No entanto, a relação com Deus nada tem de necessária, não passa também de uma relação possível. De resto, a relação com Deus, dirigida pela fé, não pode trazer qualquer certeza intelectual de libertação das incertezas da possibilidade. A fé não oferece qualquer certeza intelectual, certamente, mas oferece mais para aliviar a condição humana: ter fé é assumir os riscos que derivam das possibilidades da existência. Ora, aqui está a verdadeira escolha diante da existência: não é escolher isso ou aquilo, cair na angústia ou no desespero, mas assumir os riscos da existência pela fé ou não. A esse respeito, Kierkegaard diz que não se trata de escolher isso ou aquilo, mas escolher querer, ou seja, em primeiro lugar, assumir uma responsabilidade. De fato, se tudo é possível e as possibilidades positivas não são mais seguras que as possibilidades negativas, o Indivíduo não tem outra opção a não ser se entregar a Aquele para que tudo é possível. Consequentemente, a fé: ainda é necessário alcançar uma posição na existência em que a fé tenha sentido e importância. (CHARLES LE BLANC. 2003, p. 51-52)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Kierkegaard e o Possível


O conceito de possibilidade é a pedra angular da construção filosófica de Kierkegaard... O “possível” de Kierkegaard não remete a um juízo sobre o devir das coisas ou o sobrevir de um estado de coisas, mas caracteriza o existir do homem. A vida não é apenas bios, que tem seu movimento próprio do nascimento à morte. A vida do homem é existência, é relação com o mundo e com os outros; é preocupação com sua sobrevivência, é antecipação e projeto, desenvolvimento de um programa que está se escrevendo, saída fora de si da vida, é essa continuidade contrariada por descontinuidades, as das escolhas que é preciso efetuar o tempo todo. O existir é contingência absoluta: o existir é não conhecer outra necessidade a não ser a das escolhas exigidas por um existir livre sem determinação. (CHARLES LE BLANC. 2003, p. 48).

Kierkegaard se opõe à redução lógica do cristianismo


Sob a influência do seu mestre e amigo Poul Moller (1794-1838), Kierkegaard protestou muito cedo contra a redução do cristianismo a um sistema dominado pela necessidade lógica. Opõe à especulação dialética da mediação a separação absoluta entre Deus e a natureza, entre o eterno e atemporal, entre o finito e o infinito, oposições absolutas a não se no momento íntimo da fé, que é a revelação de Deus no tempo. Recusa admitir que o mistério da Trindade perca sua opacidade, que encontre uma explicação objetiva no desenvolvimento dialético hegeliano. Para ele, a revelação de Deus no tempo é um paradoxo que a razão não consegue penetrar. Na linguagem de Kierkegaard, o paradoxo exprime a relação entre um espírito finito e uma verdade infinita.
            Eis portanto, em poucas palavras, alguns elementos a partir dos quais se formou, sem isso reduzir, a filosofia de Kierkegaard. O pensamento de Kierkegaard não é apenas um pensamento que se opõe, por exemplo, ao romantismo e à aplicação do hegelianismo à teologia; é um pensamento positivo que persegue seu objetivo preciso: a apropriação subjetiva da verdade e a construção do papel de testemunha da verdade que o pensador, com os riscos que isso comporta, deve assumir no “temor e tremor”. (CHARLES LE BLANC. 2003, p. 29-30).

Kierkegaard vs Igreja Luterana

Se a fé é estimulada pelo sofrimento, o homem não deve fugir dele pelas mundanidades - o divertimento de Pascal -, mas, ao contrário, deve procurá-lo como a oportunidade inesperada, concedida por Deus, de elevar sua alma até Ele. O cristão é, consequentemente, o homem do sofrimento, e o cristianismo como provação, como Paixão, é a  única via de acesso a Deus. Inelutavelmente: se Cristo é modelo da existência e se é verdade absoluta, essa verdade só pode conduzir ao sofrimento aquele que tenta se orientar por ela, que aceita de fato deixar-se desorientar por ela. A vocação do cristão é é o sofrimento, e Kierkegaard que, bem jovem, já teve sua parcela, tratará de realizá-la plenamente por toda sua vida. Foi essa concepção do cristianismo que o conduziu, pela lógica implacável de sua própria exigência, a romper com a Igreja de seu pais: para Kierkegaard, o cristianismo como interioridade só poderia opor-se ao mundo, só poderia ser-lhe heterogêneo.... Toda sua obra está a serviço de uma única coisa: esclarecer a natureza do cristianismo. (CHARLES LE BLANC, 2003, p. 22-23

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A Relação Homem e Deus pelas categorias de Finito e Infinito




Neste terceiro ponto apontaremos algumas implicações da relação homem e Deus, e como essa relação é fundamental para entendermos o pensamento do autor quando este fala do conceito do desespero, e como esse conceito tem profunda atuação no homem. Depois de abordarmos os temas homem e Deus, nos pontos anteriores chegamos à reflexão de que o desespero leva o homem a um estado de vantagem e a um estado de imperfeição. Entendemos essa vantagem porque ela nos faz consciente de nossa superioridade ao animal. Percebemos-nos diferente do animal não só pela mera verticalidade do caminhar em pé, mas porque somos susceptíveis de desesperar. Esse desesperar serve de diferenciação; o eu se desespera porque é consciente da sua existência. O animal não tem essa consciência, portanto, não se desespera. Essa enfermidade se dá pela possibilidade de escolha que nós somos e por isso só existe no ser racional.

Sofrer de um mal desse coloca-nos acima do animal (...). A superioridade do homem sobre o animal, está pois em ser susceptível de desesperar; a do cristão sobre o homem natural, em sê-lo com consciência, assim como a sua beatitude está em poder curar- se. Assim há uma infinita vantagem em poder desesperar[1]

Porque o desespero é a consciência de que o estágio estético não confere sentido mais profundo à existência. Neste sentido, o desespero é a passagem para o estágio ético e concomitantemente para o estágio religioso, como foi o caso de Abraão. Se a superioridade do homem sobre o animal se encontra na possibilidade de desesperar, a do cristão sobre o homem natural está na consciência de possuí-lo, pois o cristão diferente do homem natural consegue pela beatitude curar-se dessa enfermidade. O desespero por si mesmo talvez não seja um estado de imperfeição, ele poderá se tornar imperfeição no imediato da negação do eu, porque essa negação representa uma fuga do real, uma tentativa de tornar a eternidade em temporalidade. Reconhecer a eternidade é adquirir o conhecimento daquilo que somos de fato, infinito e finito.      
            Partindo desses estados de vantagens e imperfeições, podemos elevar o desespero a duas categorias: o desespero virtual e o desespero real. O desespero virtual se manifesta no instante em que o eu busca atributos alheios a si. Ele se dá quando se depara com sua impotencialidade, e com isso almeja uma aniquilação de seus atributos. O homem se ver infeliz com o que tem e o que é, passando a buscar a superação de si naquilo que lhe são alheios, porque de fato o salto sobre o temporal está na aceitação de si, onde temos o desespero real. Esse real é a capacidade do reconhecimento de si, de sua grandeza e de sua miséria, de que é preciso fazer escolhas que dêem sentido à vida, mas nessas escolhas que são possibilidades de efetuação o indivíduo defronta-se consigo, passa a perceber as várias implicações que suas ações podem acarretar, nesse defrontar-se o eu pode se ver impotente frente às decisões que devem ser tomadas, mas é preciso uma superação do medo, é preciso apostar na infinitude para que sua finitude se realize, assim sua existência se concretiza no caminhar da própria existência, porque essa só terá fundamento se realmente realizar-se em sua plenitude. Essa dupla categoria se dá pela discordância da síntese que se estabelece consigo mesma.
            A discordância interna dessa síntese é nomeada de desespero, pois essa relação da discordância diz respeito a si própria, porém, não podemos intitular a síntese de discordância, mas apenas a sua possibilidade ou implicação do desespero. A síntese é entendida como possibilidade ou implicação do desespero quando ela se confronta pelas categorias que formam o homem. Essa oposição das categorias representa uma luta entre os termos, onde cada um quer se sobrepor ao outro gerando um mal estar, quando isso acontece há discordância, o desespero.
No momento em que o desesperado é inconsciente de ter um eu, essa possibilidade de ser ou não ser desesperado existe apenas na não-consciência, como afirma Kierkegaard, esse é o verdadeiro desespero. Afinal não existe o não-desespero, o que existe de mais real no homem é o desespero, mesmo que ele não tenha a consciência de possuir essa doença mortal. Essa discordância se encontra em todo homem, o que pode haver é a não consciência de possuí-la, porque essa doença, que no fundo é uma morte de si mesmo, está presente em cada um de nós, torna-se um reconhecimento de si. 
Essa doença mortal aplicada ao eterno reafirma a existência indestrutível do eu, a sua permanência na atemporalidade. Para que haja essa doença mortal, o filósofo dinamarquês afirma a necessidade da existência dessa síntese, pois caso contrário, não haveria essa angustiante e sofredora doença, e o sofrer dessa doença não seria mais do que um atributo humano, inerente a sua natureza, sendo assim, não haveria o desespero.

Seria apenas um acidente para o homem, um sofrimento como uma doença em que sossobrasse, ou, como a morte, nosso destino comum. O desespero está, portanto em nós; mas se não fossemos uma síntese, não poderíamos desesperar, e tão pouco o poderíamos se esta síntese não tivesse recebido de Deus, ao nascer, a sua firmeza.[2]

            Essa discordância (desespero) não possui maior ou menor grau, uma vez que ela sempre se apresenta com toda a sua possibilidade de ser. O primeiro ato de se desesperar tem a mesma força que o próximo ato de desesperar. Ela não é como uma doença que possui estágios mais críticos ou menos críticos. Essa discordância é sempre o mesmo desespero, sua manifestação uma vez dada se apresentará sempre a mesma. Tomemos como exemplo a queda de um corpo jogado para baixo do alto de um edifício, toda vez que jogarmos esse corpo ele provocará o mesmo efeito ao se chocar com o chão. Não há aí o menor ou o maior impacto o que há de fato é o impacto, assim pensamos que seja o desespero.

De outro modo se passam às coisas no desespero. Cada um dos seus instantes reais é redutível à sua possibilidade; a cada momento do desespero, se contrai o desespero; o presente constantemente se desvanece em passado real, a cada instante real do desespero o desesperado contém todo o passado possível como se fosse o presente.[3]

Percebermos que esse mal não possui diferenciações de graus, pelo motivo de contrair em si toda a sua potencialidade compreende-se que o homem ao estabelecer dicotomias entre o desespero cai em dois estágios, o verdadeiro e o não verdadeiro. Podemos falar do desespero verdadeiro quando o indivíduo se desespera na negação do Absoluto, porque está perante Deus e O nega. O indivíduo se coloca no lugar do Absoluto quer provar toda a existência a partir da sua própria existência, ou seja, ele atribui a si o conceito de infinitude e nega a finitude. Ao negar um dos termos trazemos à tona a discordância, estabelecê-la é contrair o desespero.
Ao conceito de desespero não-verdadeiro, pensamos que pode ser compreendido no momento em que o homem não se reconhece diante de Deus. Não é que ele negue essa Realidade, mas o eu não tem consciência dessa existência eterna. Afinal esse desespero de modo geral se dá pela possibilidade de escolhas que o homem tem, se sentindo desamparado, jogado no mundo, ele não se dá conta de sua infinitude que o sustenta, como se fosse suspendido, posto acima das impossibilidades. Vemos coisas desse tipo no cotidiano da vida. Vivemos essa possibilidade de escolhas, hora queremos isso, hora queremos aquilo, e nisso vivemos angustiados por não termos a clareza da decisão correta, por nos sentirmos desamparados, assim estamos vulneráveis a abraçar com mais facilidade essa doença do eu com toda a sua intensidade. 

Pois o que torna um homem desesperado não é a má sorte, mas é que lhe falta o eterno; desespero consiste em não ter se submetido à transformação da eternidade pelo “tu deves” do dever. O desespero, pois, não consiste na perda da pessoa amada, isso é infelicidade, dor, sofrimento, mas o desespero consiste na falta do eterno. [4]

Tendo compreendido que essa doença mortal – desespero verdadeiro e o não verdadeiro, não são causa de destruição do eu, uma vez que ele não é destrutível, que ele não termina com a morte, mas pelo contrário, perpassa a morte, continuando sua caminhada no atemporal, que faz o homem então? Tenta de forma alucinada, como que embriagado pelo ódio, negar a si. Trava uma batalha interior consigo próprio, a finitude contra a infinitude, ou seja, o desesperado quer libertar-se de si, do seu eu, anseia uma nova realidade, por isso é que Kierkegaard entende o desespero como uma doença mortal, porque o homem a todo o tempo está tentando matar seu eu para afirmar um eu imaginário, contudo, tal mortalidade implica em viver na morte. Cada vez que existe essa tentativa de morte surge uma nova afirmação do eu, provando assim a sua eternidade.

O desespero é portanto a doença mortal, esse suplício contraditório, essa enfermidade do eu: eternamente morrer, morrer sem todavia morrer, morrer a morte. Porque morrer significa que tudo está acabado, mas morrer a morte significa viver a sua morte; e vivê-la um só instante é vivê-la eternamente. Para que se morresse de desespero como de uma doença, aquilo que há de eterno em nós, no eu, deveria poder morrer, tal como o corpo morrer de doença. Ilusão!(...) Não devora a eternidade do eu, que é o seu próprio sustentáculo. [5]

            Frente ao desespero, o eu que é eterno, procura a todo instante a morte de si-próprio, ou seja, busca-se nessa realidade uma eliminação do corpo enquanto finitude do ser, como se com a morte do corpo o eu conseguisse a superação dessa enfermidade, porém, é inadmissível tal conclusão, porque ele se desprendeu da realidade finita e cai na infinitude do ser, tendo como conseqüência o eterno desespero, noutra perspectiva, deseja-se a morte de sua própria existência, o homem quer esconder sua condição de ser delimitado pelo tempo, quer esconder que seu fim é determinado por sua condição de possibilidade, por suas escolhas, e por mais que ele fuja terá a morte como fim, mas é preciso uma postura frente à realidade, não fugir dela, pois se fugimos vivemos a morte em seus instantes reais, antecipamos o seu tempo. Nesse contexto, Abraão não se propõe a tal atitude, pois para ele não há essa necessidade de fuga, enfrenta sua condição do homem, mantém sua relação consigo mesmo e com o Absoluto, ultrapassando o geral e se sacrificando por ele, mas não de forma inconsciente, ao contrário, assumindo essa possibilidade do possível.  
           
O dever absoluto pode então levar à realização do que a moral proibiria, mas de forma alguma pode incitar o cavaleiro da fé a deixar de amar. É o que mostra Abraão. No momento em que quer sacrificar Isaac, a moral diz que ele o odeia. Mas se assim é realmente, pode estar seguro de que Deus lhe não pede esse sacrifício; com efeito, Caim e Abraão não são idênticos. Este deve amar o filho com toda a sua alma; quando Deus lho pede, deve amá-lo se possível, ainda mais e é então somente que pode sacrificá-lo; porque este amor que dedica a Isaac é o que, pela sua posição paradoxal ao amor que tem por Deus, faz do seu ato um sacrifício. Mas a tribulação e a angústia do paradoxo fazem que Abraão não possa ser compreendido, de nenhuma forma, pelos homens. É somente no instante em que o seu ato está em contradição absoluta com o seu sentimento, que ele sacrifica Isaac. No entanto, é pela realidade de seu ato que pertence ao geral e, neste domínio, é e continua a ser um assassino. [6]  

Abraão supera o estado estético e ético – o desespero. Ele como qualquer outro homem, é possuidor dessa existência, transpondo o desespero para o universal. Sendo que ele não existe apenas na consciência de si, mas na existência[7], pois se fosse o contrário o homem seria desesperado quando crer-se que o fosse e deixaria de ser quando não crer-se mais. Ora, o desespero não é uma escolha entre ser ou não ser desesperado, ele é uma aceitação, um reconhecimento de sua existência, afinal nós não escolhemos possuir ou não possuir a doença mortal, necessariamente a existência do eu é desesperada, é universal. Abraão, como cavaleiro da fé, só age contra a moral, contra a proibição dos costumes de seu povo, porque é movido por outra lei, a Divina. Abraão não é irracional, pois se fosse, talvez não desse conta da necessidade de obedecer ao sacrifício de Isaac. Sua racionalidade se fundamenta na esperança de, por um ato de amor solitário, salvar a humanidade. Isaac não é só filho do absurdo, mas representa o amor ao Absurdo – Deus, para com o gênero humano. Esse solitário cavaleiro se torna realmente incompreensível por seu ato, mas perante sua fé ele é magnífico, o homem que está acima de todo o homem. Os estágios ético e o estético se perdem na imensidão do Absoluto. A moralidade pode considerá-lo um assassino. Se o sacrifício se efetua-se, seria louco, mereceria ele mesmo morrer, mas a moral se fundamenta nela mesma, inclusive ela é temporal, se dá no momento imediato, enquanto o eu de Abraão se fundamenta no estado religioso, obedece a si mesmo enquanto relação com Deus. O cavaleiro da fé, não só sobe a montanha para o sacrifício, mas essa subida representa elevar-se além do geral, e de forma incompreensível pela razão se joga no Absurdo, como uma gota d’água que se joga ao mar. Abraão não se perde na infinitude, ao contrário, se constrói uma bela relação de amor entre o finito e o infinito, o humano se diviniza e o Divino se humaniza.
 Sendo o desespero essa doença universal, é um erro pensá-la como uma exceção, porque na verdade ela é a regra. Ela é a regra porque é geral a todo o homem. Se fosse uma exceção seria uma doença psicológica. Ela se torna uma exceção apenas para o senso comum, onde se afirma ser ou não ser desesperado dependendo das circunstâncias, e se são, são apenas imediatos. O indivíduo que não se sente ou não se supõe ser desesperado, viverá a grande angústia do desespero, pois o homem que se afirma como possuidor do desespero não está longe da cura, pelo contrário, está mais próximo do que aqueles que não se aceitam ou não se julgam desesperados.
À medida que nos reconhecemos enfermos tanto mais o eu se afirma. Também com o crescer da consciência cresce a vontade, quanto maior for a vontade será o eu. Um homem sem vontade é um eu inexistente, pois à medida que aumenta a vontade no homem conseqüentemente aumentará a consciência de si próprio. Mas o que é essa vontade afinal de conta? Essa vontade é o reconhecimento que o homem tem de si como ser dialético, por essa vontade se movimenta o indivíduo, ela leva-o cada vez mais a se re-descobrir como desesperado, e a cada vez que se re-descobre, mais aumenta a consciência de si.
Quando não há esse re-descobrir-se do homem, ele corre o risco de se perder na infinidade, que é imaginária. O homem só se encontra na infinitude que é estar perante Deus, essa é a verdadeira infinitude. Já o mergulhar na infinitude ilusória é buscar a cada instante o desespero, pois, ele é dialético. A Eternidade garante ao homem “o finito que delimita e o infinito que ilimita” [8]¸ perante Deus o desespero não é informe, mas é reconhecimento de si.
O finito desesperado se dá pela carência do infinito. Esse desesperado leva uma vida temporal, construída de aparências buscando satisfazer seu ego nos louvores humanos, uma busca incessante por honrarias e glórias terrestres, uma busca pelo estético.

É por isso que ele (Abraão) me aterroriza ao mesmo tempo que suscita a minha admiração. Aquele que se renega a si próprio e se sacrifica ao dever renuncia ao finito para alcançar o infinito; e não lhe falta segurança; o herói trágico renuncia ao certo pelo mais certo, e o olhar pousa nele com confiança (...) Sofre toda a dor do herói trágico, aniquila a sua alegria terrestre, renuncia a tudo e corre ainda o risco de fechar a si próprio o caminhar da alegria sublime, tão preciosa a seus olhos e que ele (Abraão) queria conquistar a todo o preço (...) O herói trágico realiza o seu ato no momento preciso do tempo; mas no decurso do tempo realiza também uma outra ação de não menos valor: visita aquele cujo peito oprimido não pode respirar nem abafar os suspiros, aquele cuja alma se verga ao peso da tristeza, acabrunhada pelos pensamentos alimentados de lágrimas; aparece-lhe, liberta-a do triste sortilégio, corta os laços, seca as lágrimas; porque se esquece de seus próprios sofrimentos ao pensar nos alheios. [9]

A atitude do cavaleiro da fé passa pela superação do temporal para se encontrar na eternidade, ou seja, supera o possível imediato para alcançar o possível Absoluto, nisso o autor afirma que “o eu é necessidade, porque ele próprio é possível, porque deve realizar-se” [10]. O desespero do possível se dá no afastar-se da necessidade. O possível pode ou não se realizar, não há uma efetuação do eu, apenas ele é movido por desejos, angústias, esperanças. No desejo o possível nos engana, e se mostra como real, mas em seguida vem a certeza de que tudo isso que o eu esperava tornou-se apenas uma imaginação, uma criação de uma mente imaginativa, nisso o desesperado afasta-se de si próprio, se perde na sombra da ilusão. Na angústia, o espírito[11] sempre busca uma esperança, isso prova que o momento delimitado pelo tempo, o presente – o instante[12] é insatisfeito, pois a esperança representa uma busca por algo melhor, a ela buscamos porque há uma inconformidade com o presente, com a vida. Sabemos que de fato vivemos o possível, desejamos – talvez aconteça a suprassunção da angústia – eliminação, o fim do mal que pode ser eterno pelo suicídio – na esperança de que tudo se efetue, que a necessidade se co-pertença ao possível.
O homem se re-encontra na eternidade porque nesse caso há um acréscimo da consciência do eu, contudo desesperar-se do eterno implica que possuímos a idéia do eu, de que há nele a eternidade, por isso, o desesperar-se é um ganho, uma vez que quanto mais nos desesperamos no eterno mais consciência o eu assume. É por essa mesma eternidade, pela fé[13], por esse salto qualitativo que o eu supera o desespero, caindo no estágio superior da existência que é o estado religioso, fase de culminação do desenvolvimento existencial. Nesse estágio o homem alcança uma relação particular com o Absoluto onde Deus é a única fonte capaz de realizar plenamente o indivíduo.
Partimos do pressuposto de que somos necessariamente desesperados. De início era uma idéia, agora chegamos à conclusão, somos possuidores desse mal. Mas não é o caso dele ser inerente ao homem que devemos nos desesperar, pois para essa enfermidade há uma solução, nossa aposta em Deus por um salto qualitativo, a fé. Percebemos que a doença mortal, essa enfermidade da temporalidade, representa, é e está enraizada à nossa existência. Só teríamos uma possibilidade de não sermos tocados por ela, se não tivéssemos nascido, pois nem a morte pode remediá-la, a não ser no sentido do mais puro cristianismo, uma morte para o mundo, um reencontro com o Eterno. 
                                                                                                                                                                            



[1] Ibidem. P.15
[2]  Ibidem. P.16
[3]  Ibidem. P.17
[4] KIERKEGAARD. As Obras do Amor. 2005. P. 59
[5] KIERKEGAARD. Desespero a Doença Mortal. P.20
[6] KIERKEGAARD, Sören. Temor e Tremor. Trad. Maria José Marinho. Coleção os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979. P.154
[7] Kierkegaard sai de um homem só razão e o desnuda na sua existência, pois a razão corre o risco de formular apenas conceitos metafísicos, sem apreender o real, com isso, Kierkegaard tem a preocupação de compreender a existência junto com a razão – consciência de si.
[8] KIERKEGAARD. Desespero a Doença Mortal. P.36
[9] KIERKEGAARD. Temor e Tremor.P.145
[10] KIERKEGAARD. Desespero a Doença Mortal. P.42
[11] KIERKEGAARD, Sören. O Conceito de Angústia. Trad. João Lopes Alves. 2a.edição. Editora Presença. 1979. “A síntese de alma e corpo deve ser instituída pelo espírito, mas o espírito é o eterno e só existe, pois, quando institui também ao mesmo tempo a primeira síntese: a do temporal e do eterno”. P. 138.
[12] Ibidem. “O instante é essa coisa ambígua em que se tocam o tempo e a eternidade: tal contacto institui o conceito de temporal, em que o tempo não mais cessa de repelir a eternidade e a eternidade não mais cessa de penetrar o tempo”. P.135.
[13] KIERKEGAARD. As Obras do Amor. 2005. “Ela mantinha o segredo para si mesma, foi o segredo da fé que a salvou, tanto no tempo quanto para a eternidade. Este segredo tu podes conserva para ti mesmo, inclusive quando com franqueza confessares a tua fé; e quando exaurido jazeres no leito de enfermo sem poder mover nenhum membro, quando não puderes nem movimenta a língua, podes ter mesmo assim junto a ti este segredo”. P.45