
Como ponto de partida de nossa investigação, faz-se necessário uma abordagem sucinta da compreensão de homem e Deus na filosofia de Kierkegaard. Analisaremos primeiramente a concepção de homem em seus estágios estético, ético e religioso, sendo que esse último estágio será cogitado posteriormente no terceiro capítulo deste trabalho. Esse indivíduo é visto a partir de sua existência, dado no concreto da realidade vivida por ele. Uma concepção voltada para um ser que se confronta com os problemas mundanos que são também os seus problemas, pois esse se dá na possibilidade de suas escolhas. Na concepção kierkegaardiana, o homem é um sujeito singular, que se dá como existência, não como gênero humano, mas especialmente como homem subjetivo, que se subjetiva em sua realidade efetiva. Ele não é apenas consciência de consciência, mas um ser que se confronta consigo mesmo na medida em que vai tomando consciência do seu vir-a-ser. Não é apenas um ser racional, é, sobretudo, existencial.
Uma existência que acontece no dado real, pois o “interesse da existência é a realidade”. É nessa dialética paradoxal, nesse inter-esse que surge os estágios estético, ético e religioso do homem. Para esse dinamarquês, longe de crer no cogito ergo sun, a verdadeira subjetividade não está no fato de pensar, uma vez que agindo assim não passamos de conjecturas, presos no mundo das possibilidades, mas ao contrário, está no ato da subjetividade ética da existência que tem como pressuposto a possibilidade do alcance do estágio religioso, sobretudo, quando esse indivíduo se reconhecesse no desespero real de si mesmo.
Tal pensador ao abordar a existência humana no dado real está re-instituindo uma nova concepção de homem que encontra ecos na postulação cristã de homem.
"Em semelhante altura o Cristianismo colocou cada homem, absolutamente cada homem – pois para Cristo, tampouco como para a providência de Deus, não há nenhuma quantidade, nenhuma multidão, pois os inumeráveis estão para ele contados, são todos indivíduos; tão alto o Cristianismo colocou cada homem, para que ele não devesse prejudicar sua alma por se elevar nas diferenças da vida terrena ou por suspirar sob elas. Pois o Cristianismo não fez desaparecer as diferenças, tampouco como o próprio Cristo não quis e nem quis pedir a Deus para retirar os discípulos do mundo – o que dá no mesmo. Por isso, no Cristianismo, tampouco como no paganismo, jamais viveu um ser humano sem estar vestido ou revestido das diferenças da vida terrena, que pertencem a cada um especialmente pelo nascimento, pelo estado, pelas circunstâncias, pela cultura etc. – nenhum de nós é o homem puro. O Cristianismo é sério demais para fabular a respeito do homem puro, ele apenas quer tornar os homens puros" (KIERKEGAARD, 2005a: 91).



